revista literária Polichinello

[ 2.4.08 ]

 



BARTLEBY H. BARTLEBY [2.4.08]

 



BARTLEBY H. BARTLEBY [2.4.08]

 


BARTLEBY H. BARTLEBY [2.4.08]

 

MANHÃ SUBMERSA livro de vergílio ferreira


«Manhã Submersa» é um romance um pouco triste e cruel que retrata a vida de um conjunto de seminaristas oriundos de famílias pobres ou remediadas que se encontram num beco sem saída, entre uma suposta perspectiva de vida boa mas cheia de limitações em contraste com uma suposta liberdade em más condições de vida. Seminarista à força, ou privilegiado eleito a partir de um capricho de pessoas ricas e austeras, António Borrralho sofre a obrigação de uma vocação que não sente, encurralado pela mãe que sonha com uma velhice mais confortável em virtude da prometedora carreira eclesiástica do filho, e uma tutora que o escraviza na religião mesmo em períodos de férias, benemérita que faz pagar bem alto o preço de ajudar uma família que vive na miséria.

Num mosteiro onde também a austeridade impera, por meio de regras e caprichos de padres que também têm as suas obsessões, aulas de latim apimentadas por lutas entre facções criadas pelos educadores, ambientes de isolamento mas simultaneamente de criação de um rebanho dócil de seminaristas a todo o preço, geram os mais variados tipos de angústias e sentimentos negativos, atenuados em parte por algumas amizades e também por rivalidades que distraem os rapazes do ambiente deprimente em que se encontram. As atitudes de revolta, algumas mais premeditadas, outras longamente alimentadas em silêncio e depois precipitadas, são uma constante do comportamento dos seminaristas ao longo dos vários anos que António Borralho aguenta a sua estada no seminário.

O estado emergente da adolescência, as tentações da carne a que tem que fugir a todo o custo, as provocações pérfidas e degradantes de várias pessoas entre os quais os seus antigos amigos e pessoas da família da sua tutora, indiciam um desprezo ao seu estado que o mina por fora como por dentro, que a pouco e pouco leva António a consolidar uma decisão de ruptura que o colocará de volta ao seu destino desgraçado mas liberto, preferindo a crueza da realidade á hipocrisia do meio homem sem vida. Entre as dúvidas dos amigos e as suas próprias, no descobrir da existência como homem e dos prazeres e armadilhas que a vida oferece, enleado numa teia de acontecimentos que não controla e onde se sente um joguete, a longa introspecção acaba por ser um jogo de hesitações onde só um acto repentino, irreflectido e irreversível, fruto do ódio, acaba por o colocar no caminho certo do seu destino.

Manhã Submersa (...) o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. Exactamente porque só é fútil e ingénua a infância dos outros - quando se não é já criança.

(...) Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas «comovente»... Dói-me o que sofri e «recordo», não o que sofri e «evoco».

(...) Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia.

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos.


BARTLEBY H. BARTLEBY [2.4.08]

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BARTLEBY H. BARTLEBY [1.4.08]

 



BARTLEBY H. BARTLEBY [1.4.08]

 



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A Pornografia de Witold Gombrowicz

“A Pornografia” é um livro de Witold Gombrowicz, escritor polaco (1904-1969), feito em 1960 e cuja acção decorre em 1943 na Polónia sujeita à patoila nazi. Não é um livro sobre a guerra e os dramas da mesma, que apenas merecem umas curtas passagens. Pelo meio há uns episódios à volta da Resistência polaca e um curioso personagem que desistiu de chefe para ser só vivo, mas também isso é lateral ao cerne da coisa.

E que coisa. A história é curta e linear. Em plena Segunda Guerra Mundial, na Polónia rural, o porco Witold Gombrowicz, narrador e personagem, emparelha com um outro pérfido velho, manobrando astutamente dois adolescentes com a genitália aos saltos. Os dois velhos lúbricos, Witold e Frederico (personagem fascinante) saem da cidade e vão por convite para uma quinta. Aí, os dois porcos dão de caras com a bela Hénia e o apolo Karol, ambos de 16 anos. Qual deles o mais apetitoso. Embora prometida pelos pais a Alberto, Hénia destila sensualidade e derrete-se por Karol. Karol, como todos os adolescentes machos, tem os tomates aos saltos. Os velhos querem papar os dois, mas vêm que só lá chegam se os fizerem descer aos infernos, ao pecado e ao sentimento de culpa. Isto é, como abutres que são, sabem, que não conseguirão ferrar o dente em carne virgem mas somente em carniça conspurcada. Este é o início do livro. A partir daqui é impossível parar de ler.

Enquanto ao longe ribombam os canhões, a velhice canalha e ratazana, procura incendiar a volúpia infantil, num claro propósito de transgressão de regras e aproveitamento dos restos. É um livro de deliciosa malícia, de perfídia maquiavélica por parte dos dois sabujos, que fazem jogos de marionetas com a pulsão sexual dos teenagers inconscientes.

Gombrowicz é um mestre na criação de uma densidade psicológica muito forte, com uma perfeita construção de personagens que se movem num crescendo denso e coerente. Dois velhos a brincar ao Jardim das Delícias. Todo o romance e toda a trama roda à volta de uma pulsão sexual obsessiva de todas as personagens principais. A velhice rateira e calculista, manobra a juventude bela e impetuosa, numa lide de arena que prende de princípio ao fim. Pelo meio, há a guerra em curtas alusões, há religião, dilemas existenciais, crime e morte, mas isso são espinhos na rosa suja esculpida por Witold. Genial.

Mas atenção, que o livrinho não tem uma única cena ou descrição sexual, se por isso se entender a coisa dita cuja de esfregação e gozo. A Pornografia está no livro, mas sobretudo na cabeça dos velhos. Do que é dito adivinha-se o acto que nunca se vê. A Pornografia está na sobra de cada um de nós, sobremaneira na de Gombrowicz.

O livro não é fácil de encontrar. Mas há uma edição da Nova Fronteira de 1980, disponível na Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/ajuda.cgi).

Segue abaixo alguns excertos deliciosos, só para abrir o apetite:

“Na virtude estavam fechados para nós, estavam herméticos. Mas uma vez no pecado podiam espojar-se conosco…”

“Tento, disse a sorrir, chegar a algo parecido com estas crianças; pelo seu trabalho prometi-lhes uma prenda, pois é tarefa dura! Ah, a gente aborrece-se no campo por não fazer nada, é preciso deitar a mão a qualquer coisa, mais não seja por higiene, meu caro Witold, mais não seja por higiene!”

“Quer saber qual é o meu plano? Nenhum. Sigo as linhas de força, compreende? As linhas do desejo. Nesta altura estou empenhado em que ele os veja e eles saibam, também, que ele os viu. Haverá que ligá-los a uma culpa. O que a seguir sucederá, mais tarde se vai ver.”

“…e só participava na vida como cão escorraçado, cão sarnento. Na minha idade, havendo oportunidade de tocar na floração, de penetrar na juventude ainda que ao preço da depravação, parecendo-nos que a fealdade ainda pode ser utilizada e absorvida pela beleza, nessa altura… Uma tentação que varre todos os obstáculos, irresistível.”

“Eu sempre soube que isto me estaria destinado. Sou o Cristo esquartelado numa cruz de dezasseis anos. Salvé! No Gólgota nos havemos de voltar a encontrar. Salve!”

“E tudo isto – a morte, o nosso medo, o nosso horror, a nossa impotência – só para aquela mão jovem, jovem de mais, poder apanhar a miúda… Eu já mergulhava no acontecimento como se não fosse crime mas aventura maravilhosa dos seus corpos inexperientes e surdos. Volúpia!”

“…como que álcool puro; por conivência connosco, por nossa instigação e certa necessidade também de nos servir é que se expunham assim – e aproximavam com passos furtivos! – e preparavam para cometer semelhante crime! Era divino! Era incrível! Continha a mais fascinante beleza do mundo! Deitado na cama, eu exultava literalmente de alegria ao pensar que éramos, eu e o Frederico, a inspiração capaz de mover os dois pares de pernas…”


BARTLEBY H. BARTLEBY [1.4.08]